Na foto acima, Vinícius Muniz, Lícia Brancher, Dauro Veras, Chico Faganello, Cíntia Domit Bittar e Lucas Barros, da equipe do filme. 
Na foto acima, Vinícius Muniz, Lícia Brancher, Dauro Veras, Chico Faganello, Cíntia Domit Bittar e Lucas Barros, da equipe do filme. 


Suíno na região Oeste de SC significa muito mais do que uma classificação zoológica. É quase um conceito, uma filosofia que define a vida das pessoas. Até mesmo o viajante mais desatento pode entendê-lo, sem muito esforço intelectual. Só precisa usar os sentidos. Sobretudo o olfato.
Mas o conceito suíno é extremamente amplo e vai além do cheiro azedo espalhado pelo ar. Ele determina não só as relações sociais e de trabalho, pautadas pela acumulação e distribuição de riquezas, mas também as de caráter mais íntimo, uma vez que estabelece e mantém vínculos afetivos.
O porco é um personagem fundamental no imenso palco do teatro imaginário local. É através dele que se criam diálogos, piadas, ironias e expressões que revelam sua presença também no inconsciente das pessoas. O porco é quase uma figura mitológica que vive uma interminável metamorfose. Um ser desconhecido, que tem o poder de se transformar em salames, torresmos e lombinhos para se incorporar aos homens e conduzir suas ações.
Personagem principal de uma atividade capaz de gerar milhares de empregos e injetar milhões na economia, a existência deste mito é marcada por outra metamorfose. Desta vez uma contradição. De sujeito produtor de história e fator de acumulação de capital, torna-se objeto de satisfação pessoal, quando empacotado e empilhado nas prateleiras dos supermercados.
Talvez sejam estas constantes metamorfoses e contradições que fazem do porco um acontecimento histórico e que poderiam imortalizá-lo num conceito, num construto teórico capaz de orientar a vida de toda uma região. Porco na psicanálise, no torresmo, no salame e na filosofia. Porco, fonte inesgotável de inspiração arquitetônica, de criação artística, de produção literária e cinematográfica.
O filme Espírito de Porco é uma narrativa que questiona as relações entre seres humanos e deles com outras espécies e com o meio-ambiente. É uma viagem à região Oeste de SC e ao universo subjetivo de homens e de animais.
Este aí ao lado é o "Oscow", conquistado por Espírito de Porco em agosto ao ser eleito pelo júri popular o melhor filme na 1ª Mostra Internacional de Cinema pelos Direitos dos Animais, em Curitiba. A estatueta foi criada pelo artista plástico Carlos Tullio, numa paródia ao famoso troféu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos. Clique na imagem para vê-la ampliada.
No dia 22, além da estréia de Espírito de Porco em Florianópolis, também será lançada oficialmente a versão em DVD do documentário. O estojo do DVD está sendo produzido com plástico reciclável pet ONG Instituto da Terra, e com o trabalho de detentos do presídio de Florianópolis. Sobre o disco será utilizada pouca quantidade de tinta, e não haverá papel. Tudo para manter o projeto dentro de um conceito de trabalho com baixo índice de poluição. A Prefeitura de Seara, patrocinadora do lançamento do filme no oeste do estado, vai receber 100 cópias em quatro idiomas até o final do ano. O DVD estará a venda na Fundação Cultural Badesc nos três dias de exibição do doc (22, 23 e 24). A partir desta data também está disponível para compra no site www.faganello.com a R$ 15,00.

O porco
Flávio José Cardozo
Alcebíades Santos, repórter de jornal, manda de Chapecó competente matéria sobre as não sei quantas utilidades que tem o porco. Relata dele tanta serventia que o leitor ponderado se constrange de já ter olhado o porco sem respeito e, pior, ter usado seu bom nome para definir um ou outro mau sujeito. Até um pensamento triste e torto cheguei a ter, confesso humildemente: da ponta do rabinho à pontinha da orelha, tintim por tintim desse vivente é 100% aproveitado - de mim que percentagem se aproveita, vivo ou morto?
Alcebíades Santos, com senso didático, retalha para nós um porco bem no ponto e faz este balanço matemático: itens industrializados são cerca de oitenta, do tipo mortadelas e salsichas; produtos congelados são uns quinze, como pernil, lombo e filé, e uns dez produtos salgados como pés, orelhas, rabo, que fazem da feijoada o encanto que ela é. E como se isso tudo não fosse já legal extraem-se ainda do dadivoso porco bondades com os quais nunca sonhou nossa vã porcologia.
Dos miolos e do reto, vejam só que chique, resultam uns peregrinos manjares que, atravessando a barreira dos mares, vão deliciar Hong-Kong. Quanto ao útero da porca, eis o seguinte: não dá só porquinhos, dá também um prato de oriental requinte. E o tesouro científico que é o porco?De seu pâncreas tiram a insulina; da mucosa intestinal, a heparina; do duodeno não ficou dito que remédio mas dele sai remédio. E nas válvulas cardíacas, ó que porco cordial! Elas dão certinho no coração humano, não há nada que melhor e por mais tempo funcione que as válvulas cardíacas do porco. Que tal, bípede mofino, saber o coração batendo aí no peito com um tique-taque suíno?
Do couro sem luxo de quem rolou na lama saem sapatos e roupas que dão gosto, e do pêlo sai pincel para ensaboar o rosto, e do casco sai cola, e dos ossos, fígado e pulmões saem rações que perpetuam o porco irmão no corpo de outros bichos.
Soubesse eu fazer orações boas, de contrição uma faria: perdão, porco, se usei mal o teu nome, perdoas?
(Diário Catarinense – 11.09.1991)
Nunca imaginei que eu tivesse voz de porco. Mas um dia o Faganello pediu pra eu gravar um áudio, lendo um poema do Walt Whitman. Gravei um trecho das Folhas de Relva num tom meio Pereio e mandei. Achei canastrão. Mas acho que ele gostou porque depois de alguns dias eu tinha em mãos o texto de Espírito de Porco e um DVD demo do documentário. Depois do impacto inicial com a força visceral das imagens percebi a idéia: o texto na voz antropóide do porco deveria relacionar-se com o que se via, gerando uma tensão poética e irônica. Imaginei essa voz sem mimetismos suínos, uma voz inteligente e altiva. Um porco - rei da pocilga - orgulhoso de sua linhagem limpa, olha os humanos do alto de sua sabedoria animal e descreve seus vícios, aponta suas falhas. Denuncia a sujeira da civilização e clama por justiça para sua espécie. Porco morto, ele é espírito com voz, e seu discurso é uma espécie de metafísica da porcaria. Durante as leituras os diretores foram indicando passagens importantes, clareando intenções e descrevendo curvas e pontos de virada. No estúdio enfim, o porco falou. Acho que o resultado soa humano, ainda que porco. Quem assistir o filme deverá reparar no perturbador close up no olho de um porco. A imagem não me sai da cabeça. Esse plano revela a estranha ligação porco-homem. Parece que ele pensa. Certamente ele sente. Nesse olho está o personagem. Ou seu espírito.
Renato Turnes



ESPÍRITO DE PORCO
[documentário, 52 min, HD, 2009]
Direção
Chico Faganello
Dauro Veras
Produção Executiva
Chico Faganello
Lícia Brancher
Roteiro
Chico Faganello
Dauro Veras
Eliane Faganello de Som
Pesquisa
Chico Faganello
Dauro Veras
Eliane Faganello de Som
Lícia Brancher
Fotografia e Câmera
Chico Faganello
Assistentes de Fotografia
Vinícius Lopes Muniz
Ivan Lohmann Soares
Tcharles Barbosa
Produção de Campo
Cássio Benatti
Ramirez Tapia
Edição
Cíntia Domit Bittar
Chico Faganello
Narração
Renato Turnes
Trilha Sonora
Chico Faganello
Produção Musical
Lícia Brancher
Pós Produção Som
Jorge Gómez – Studio 33
Douglas Narciso – Onda Sonora
Mateus Mira Bittencourt
Ilustração
Leandro Lopes
Design Gráfico
Vanessa Schultz
João Zanatta
Tradução
Regiane Capalbo
Jeffrey Hoff
Colorista
Lucas Barros
Entrevistados
Airton Giombelli
Airton Kunz
Antonio Pizzatto
Catiani Chiaparini Meneguzzi
Dair Dedonatti
Eduardo Suntti
Elza Begnini
Gilson José Nardi
Idevete Paulo de Oliveira
João Vitor de Souza
Julio Cesar Pascale Palhares
Lenoir Michelon
Leodi Giaretta
Marta Bianchin
Nelva Michelon
Neucimar Celso Araldi
Valci Terezinha Meneguzzi
Wolmir de Souza
Documentário realizado com recursos do Prêmio Cinemateca Catarinense / Fundação Catarinense de Cultura.